Política
Análise / Vladimir Safatle
Indignação seletiva
O PSDB nunca fez a autocrítica de suas experiências de poder. Acusa os
adversários de corrupção enquanto minimiza seus malfeitos. Por Vladimir
Safatle
Quem não está disposto a fazer a crítica radical da
experiência tucana de governo não tem direito algum de criticar o
lulismo e seus resultados. Nada mais farsesco na política brasileira do
que encenar indignação contra casos graves de corrupção na Petrobras e
adjacências sem nunca ter se indignado radicalmente contra a corrupção
no Metrô paulistano, com os nepotismos do senhor Aécio Neves e sua irmã,
que controlava a verba de comunicação de Minas Gerais, com os milhares
de casos de corrupção no governo FHC ou com os 70 pedidos de CPIs
arquivados na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Quem age
desta forma, baseado em uma verdadeira indignação seletiva, age como
quem acredita haver, na política brasileira, uma espécie de “direito de
corrupção” entregue pela vontade divina a certos grupos de políticos
nativos.
Ao ser questionado em debate sobre a corrupção de seu
partido, o senhor Aécio Neves limitou-se a dizer: “Trata-se de coisas
diferentes”. Isso quando não levantou o dedo contra acusações dessa
natureza e classificou de “leviana” sua interlocutora. É verdade. Há uma
diferença fundamental entre a corrupção tucana e a corrupção petista:
graças às relações obscuras e pouco republicanas, certos setores da
mídia esquecem delas mais rapidamente. Alguns veículos falam um pouco de
tais casos, sem mostrar aquele espírito investigativo que muitos
gostariam de ver. Outros nem sequer se veem na obrigação de citar. Como
não lembrar da maneira com que revistas como a Veja trataram a
informação, quando apareceu, de que o “mensalão” tinha nascido na
campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998? Sequer
deram uma notícia sobre uma situação que em qualquer lugar do mundo
seria bombástica, o presidente do partido de oposição envolvido em um
escândalo que tomou de assalto o governo. Há de se acreditar que tais
veículos não teriam muito problema em implementar práticas dessa
natureza em eventual governo tucano.
Dessa forma, o
jogo de poder parece encontrar uma estabilidade ao gosto das polainas da
República Velha. Por isso, não estaremos incorrendo em erro ao afirmar
que os que se indignam com o petismo e demonstram complacência covarde
com a experiência tucana de governo não se incomodam realmente com a
corrupção. Pois quem não tolera o assalto ao bem comum vê todos os casos
como igualmente insuportáveis, aplica uma postura jacobina na defesa do
comum e pede punição exemplar a todos, sem exceção.
Da mesma forma, a indignação com a
incompetência governamental não justifica forma alguma de voto no
tucanato. Os mesmos que se revoltam contra o governo federal neste ponto
votam sem culpa em outra administração, como a do senhor Geraldo
Alckmin, que produziu, entre outras pérolas, uma inacreditável situação
de falta de água no estado de São Paulo, misto de ausência de capacidade
de planejamento, desmonte de empresas públicas e jogo de empurra para
não decretar racionamento em época de eleição. A única razão para não se
indignar com tamanha incompetência é acreditar ser natural viver no
Tucanistão, com suas figuras de autoridade aclamadas em votação sem
segundo turno.
Por isso, em caso
de retorno do tucanato, o País abriria as portas a um partido que nunca
fez autocrítica de suas experiências de poder e cujos eleitores acham
normal que ele continue a não fazê-lo. Tal ausência de autocrítica é
tamanha que uma legenda que promete “mudanças” não vê problema em
apresentar à nação uma equipe de governo constituída basicamente por
figuras que administraram o Brasil há mais de uma década. É como dizer
ao povo que a perda do governo em 2002 foi apenas um erro de trajetória e
que não há nada a rever a partir do alijamento do poder. Fato notável.
Imaginem: estamos no Reino Unido e David Cameron, então líder da
oposição no Partido Conservador, resolve apresentar-se nas eleições com
basicamente os mesmos integrantes do gabinete de antigo
primeiro-ministro que perdeu para Tony Blair, a saber, John Major.
Impensável. Mas no Brasil parece natural. Tão natural quanto o poder que
passa de avô para neto.
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